terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Bolívia vive boom imobiliário estimulado por crescimento e, sem dúvida, a droga

AFP -


LA PAZ, Bolívia — Cercada por montanhas andinas, La Paz está mudando de aspecto, sob o efeito de novas construções, refletindo o crescimento econômico mas também, segundo especialistas, a injeção do dinheiro da droga numa das nações mais pobres da América do Sul.

Aninhada num vale a 3.600 metros de altitude, a capital possui um panorama andino inigualável. Mas os imóveis crescem como fungos, com centenas de projetos ou canteiros de obras em curso, um fenômeno vivido, também, em Santa Cruz (leste), Cochabamba (centro), Sucre e Tarija (sul).

Nessas cidades, "a quantidade de metros quadrados recentemente construídos e entregues é equivalente à construção de 24 prédios de 100 andares cada", assinalou um dos mais completos estudos sobre o assunto, realizado, em 2010, pelo grupo de cimento Soboce.

As vendas de cimento, segundo a indústria, aumentaram 12% em 2008 e 13% em 2009, enquanto que a construção cresce 10% em média por ano, o dobro do PIB, Produto Interno Boliviano, o total de bens e serviços produzidos no país.

Aqui, como em outros lugares, o progresso imobiliário traduz um dinamismo econômico, a presença de liquidez.

"Vem das exportações, ajudadas pelos preços espetaculares das matérias-primas", mas também pelas remessas de dinheiro de bolivianos do exterior, por créditos favoráveis e uma classe média emergente, num país historicamente pobre, destaca o economista Alberto Bonadona, da Universidade San Andres.

Mas, entre as "exportações", além dos minerais e hidrocarbonetos, está a cocaína, da qual a Bolívia é o terceiro produtor mundial. A superfície cultivada de folhas de coca, a matéria-prima, aumenta aí de ano em ano (são, pelo menos 31.000 hectares, segundo a ONU).

"Nos países com forte presença do narcotráfico, um dos métodos usados para lavar os dólares é justamente com a indústria de construção: compra e venda de apartamentos, levantamento de prédios. pode-se pensar que este fator influencie o boom atual", comenta Napoleon Pacheco, economista do Instituto Fundação Milênio.

- Falha geológica -

Nenhum estudo, certamente, permite ligar mecanicamente os prédios que se elevam ao dinheiro sujo. Mas, lembra-se na Bolívia, que o último grande boom imobiliário data dos anos 80, que coincide, também, com o auge da atividade do tráfico de droga.

"Por oito dólares vindos da exportação legal, há uma parte ilegal. A economia boliviana se financia nesta proporção", considerou Bonadona. Segundo a agência das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (ONUDC), o dinheiro do narcotráfico pesaria entre 3 a 5% do PIB.

Mas o boom imobiliário tem, também razões topográficas: esprimida em seu vale, La Paz não tem espaço e não pode crescer, senão verticalmente.

Em Miraflores, bairro residencial do leste, casas velhas são derrubadas, substituídas por imóveis de cinco andares.

Ora, a capital está situada em subsolo argiloso: uma falha geológica conhecida, e deslizamentos de terra, embora lentos, destruíram 1.500 residências desde 2011.

Alvaro Cortez, delegado da associação de moradores ribeirinhos de Miraflores, mostra à AFP "uma casa num terreno que foi cedendo de 5 a 6 cm. É o que acontece à maioria das residências que têm a infelicidade de estar ao lado de um prédio em construção".

Os vereadores se preocupam também com a urganização, "que exige uma ampliação da rede de serviços básicos, dos transportes. Tendo em vista a topografia de La Paz, é extremamente complicado", previne o arquiteto Javier Crespo, consultor da prefeitura, "estamos no limite da extensão do tecido urbano".

Mas quem vai interrompê-la? Para economistas como Bonadona, uma "bolha imobiliária" está prestes a ser criada, e seu estouro poderia ser doloroso para inúmeros bolivianos "que se endividam, sem ter o poder de compra para isso".
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