domingo, 1 de julho de 2012

Consumidor opta pela praticidade ao invés de espaço

Estado de Mina -

Visando principalmente à melhoria da qualidade de vida, consumidor está abrindo mão de apartamentos espaçosos. Opção é morar em locais estratégicos, mas confortáveis

A publicitária Lucimara Resende se mudou para perto do trabalho para não ter que atravessar a cidade todos os dias (Eduardo de Almeida/RA Studio)
A publicitária Lucimara Resende se mudou para perto do trabalho para não ter que atravessar a cidade todos os dias
As pessoas vão preferir apartamentos menores e bem localizados àqueles longe do Centro e com grande metragem. Essa é uma das avaliações que faz uma pesquisa divulgada pela Rede Nossa São Paulo, em parceria com o Ibope, sobre o trânsito daquela capital, para definir diretrizes no lançamento de empreendimentos. Mesmo sendo realizado na capital paulista, o levantamento se adapta a outras metrópoles do país, como Belo Horizonte.

Especialista em direito imobiliário, o presidente do Instituto Brasileiro de Estudos Imobiliários (Ibei), Fernando Augusto Cardoso de Magalhães, atribui esse cenário sobretudo à falta de políticas públicas de planejamento estratégico urbano. “As cidades brasileiras, durante muitas décadas, foram crescendo sem qualquer estudo sobre os impactos gerados pelo aumento da população e expansão territorial dos grandes centros urbanos, principalmente no que diz respeito à mobilidade urbana”, considera.

Para o diretor-executivo da Vitacon Incorporadora e Construtora, Alexandre Lafer Frankel, a questão está intimamente ligada à qualidade de vida. “Definitivamente, passar quatro horas por dia no trânsito é uma inversão de valores. As pessoas querem mais tempo com a família, praticar atividades físicas e não encarar o estresse diário vivido no trânsito. Tudo isso vale muito mais do que uma sala maior ou um closet mais espaçoso”, observa.

Frankel diz que, nos últimos anos, as grandes cidades priorizaram o transporte individual em detrimento do coletivo. Com isso, a frota aumentou muito, enquanto a infraestrutura viária é inelástica. “As cidades que não focarem o transporte coletivo e meios alternativos de locomoção, assim como mudanças significativas no planejamento urbano, se tornarão impraticáveis”, avalia.

A falta de infraestrutura também é o motivo apresentado pelo diretor da Casa Mais, Peterson Querino, para que a localização seja mais valorizada que a metragem do imóvel. Segundo ele, um dos exemplos disso é a ausência de transporte coletivo e vias públicas com capacidade de comportar o fluxo de veículos.

INFRAESTRUTURA 

Diante disso, a tendência é que haja uma despolarização nas capitais, ou seja, que haja, em cada região da cidade, infraestrutura que dispense o deslocamento para outros locais. “Há 20 anos, quem morava na Pampulha, em Venda Nova ou no Barreiro, por exemplo, precisava ir ao Centro de Belo Horizonte para resolver tudo, fosse serviço bancário ou compras. Atualmente, todos os grandes adensamentos têm esses serviços, de forma que não é mais necessário esse deslocamento.”

E com o trânsito cada vez mais congestionado em Belo Horizonte, nos dias de hoje, morar perto do trabalho é sinônimo de maior qualidade de vida, como confirma o presidente do Ibei. “Assim, aliado ao fato de as famílias terem menos filhos hoje em relação ao passado, essas vêm preferindo residir em imóveis menores, porém, mais próximos ao trabalho e às comodidades de uma região que ofereça mais oportunidade de lazer e comodidades comuns das regiões mais bem localizadas”, diz Magalhães.

A publicitária Lucimara Resende Francisco é uma das pessoas que optou pela praticidade de residir mais próximo do trabalho. “Morava em uma casa, na região da Pampulha. Trabalhava do outro lado da cidade, na Zona Sul, e sentia muito estresse por causa desse longo deslocamento diário. Por sorte, consegui um apartamento em um prédio antigo, que, além de ser bem espaçoso, tem um condomínio acessível, pois não tem elevador.”

Petersen Quirino, diretor da Casa Mais (Eduardo de Almeida/RA Studio)
Petersen Quirino, diretor da Casa Mais
O segredo é a adaptação 
Chegar o mais próximo possível do perfil do consumidor faz com que as construtoras busquem formas de aproveitar os espaços ao máximo, a fim de otimizar as moradias 
Que trabalhar perto de casa é uma grande comodidade não há dúvida. Mas como fica a questão do conforto e da qualidade de vida para as famílias em imóveis cada vez menores, principalmente quando há crianças? Alexandre Frankel, da Vitacon Incorporadora e Construtora, acredita na reinvenção da forma de morar.

De acordo com ele, a tecnologia, as áreas comuns e a infraestrutura urbana são os contrapesos da redução de espaços. “Eletrodomésticos compactos e utilização eficiente de espaços permitem ambientes menores. Prédios com áreas comuns otimizadas, com academias de alta performance e espaços coletivos para uso efetivo revolucionaram a arquitetura.”

Para isso, vale observar experiências em que os espaços são aproveitados ao máximo, a fim de otimizar as moradias. Um dos meios que a Vitacon emprega nesse sentido é estudar o leiaute de barcos e aeronaves. “Utilizar a infraestrutura das metrópoles também é fundamental. Serviços, parques, alimentação e transporte tornam a cidade amigável ao convívio familiar. Cidades como Londres, Tóquio e Nova York têm exemplos magníficos dessa experiência.”

O especialista em direito imobiliário Fernando Magalhães diz que, tendo em vista os dados do próprio IBGE de que as famílias estão cada vez menores, o tamanho do apartamento e da área de lazer não tem sido o principal aspecto levado em consideração por aqueles que pretendem adquirir imóveis residenciais em áreas mais centrais de Belo Horizonte. “Além disso, a região central tem boa oferta de escolas e demais atividades extraescolares – cursos, aulas de esportes, entre outros – que acabam ocupando boa parte do tempo das crianças”, considera.

Segundo o diretor da Casa Mais, Peterson Querino, morar perto ou longe do Centro, em apartamentos grandes ou pequenos, não pode ser confundido com conforto e qualidade de vida ou a falta deles. “O que vem ocorrendo com o tamanho dos apartamentos é uma adaptação às necessidades do perfil populacional.”

Ele explica que, na década de 1980, um casal sem filhos que quisesse comprar apartamento só teria como alternativas imóveis grandes. Ao contrário de hoje, quando ele consegue adquirir um imóvel adequado à sua necessidade. “Essa gama de opções que o mercado proporciona deixa na mão do cliente a escolha de todos os pontos que são importantes para ele, seja tamanho, localização, área de lazer ou até mesmo o preço. Dessa forma, ele pode equilibrar suas necessidades com a qualidade de vida”, diz Querino.

SOB DEMANDA 

A partir disso, quais as diretrizes para lançar novos empreendimentos em BH, uma vez que a questão da mobilidade urbana é cada vez mais importante, mas não há disponibilidade de terrenos para que todos morem perto do local de trabalho? Magalhães diz que, nesse aspecto, “as incorporadoras deverão desenvolver um bom estudo de viabilidade econômica e estratégica, a fim de melhor identificar a localização do empreendimento e os potenciais clientes.”

Três perguntas para...
Cláudio Eustáquio - diretor da Rede Imvista

Quais as diretrizes para lançar empreendimentos em BH, uma vez que a questão da mobilidade urbana é cada vez mais importante, mas não há disponibilidade de terrenos e nem financeira para que todos morem perto do local de trabalho?

Construir na capital, em função da falta de terrenos, inevitavelmente significa que as unidades habitacionais serão menores e chegarão ao consumidor a um preço um pouco mais elevado. Nesse sentido, a alternativa para os grandes empreendimentos é migrar para a região metropolitana, onde os bons imóveis são vendidos a um preço mais em conta.

A perspectiva é de que o cenário continue assim nos próximos anos?

Sim. Afinal, a escassez de terrenos vai continuar. Todas as capitais brasileiras com grande importância econômica estão fadadas à ampliação do raio de crescimento urbano para os municípios vizinhos.

Diante do dilema localização/qualidade de vida/condições para arcar com o valor do imóvel, como chegar a uma decisão?

O comprador precisa responder no mínimo a duas perguntas: se tem como e deseja pagar mais caro para morar próximo ao trabalho e se deseja migrar para a região metropolitana. As alternativas dependem de escolhas e renúncias.
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Um comentário:

Anônimo disse...

Excelente matéria!
Dalila

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