O assédio das construtoras aos moradores de casas em São Paulo tem aumentado nos últimos anos devido à falta de terrenos livres. Os imóveis que resistem à pressão são chamados de "micos" --encurralados após a construção dos prédios no entorno, se desvalorizam.
As informações são de reportagem de Natália Cancian, Chico Felitti e Cristina Moreno de Castro, publicada na edição deste domingo da Folha. A íntegra está disponível para assinantes do jornal e do UOL (empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha).
A Folha ouviu famílias "espremidas" no meio de obras ou edifícios prontos, em bairros como Butantã, Santana, Pinheiros, Alto da Lapa, Saúde, Vila Mariana e Paraíso. Moradores que "sobraram" reclamam da pressão exercida pelas empreiteiras.
Segundo especialistas, o assédio das construtoras é maior na região central onde o número de empreendimentos subiu 25% no primeiro semestre.
Segundo o advogado Edwin Britto, da comissão de direito urbanístico da OAB, os moradores não são obrigados a vender suas casas se não quiserem aceitar a oferta feita pela construtora.
| Lalo de Almeida/Folhapress | ||
| Casa que resistiu a empreendimentos imobiliários em quarteirão na rua Pero Leão, zona oeste de São Paulo |
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Marly Garcia Domingues, 77, Paraíso
A Revolta de 1924 foi a única ocasião em que a família de Marly, que ainda não era nascida, cogitou desertar do sobrado de três andares no Paraíso, diz ela. O clã saiu a pé da cidade, fugido do maior conflito armado da história paulistana. Mas voltaram depois de alguns meses para se fixar de vez no imóvel.
Passado quase um século, os Domingues não moram mais lá, mas fizeram da casa seu local de trabalho. No térreo, Marly tem uma oficina de costura. O segundo andar é ocupado pela firma de geologia de seu genro, Chico. A ONG Instituto GEA da filha, Ana Maria, ocupa o terceiro andar.
Só que parte da árvore genealógica quase foi podada das paredes há sete anos. Os retratos coloridos à mão dos dois avos de Marly não tombaram "por um triz" quando um buraco violentou de súbito a parede do térreo, em 2004. O rombo era fruto do bate-estaca da construção que tomava os lados direito, esquerdo e a traseira da casa. "À frente fica a rua... ainda", brinca Domingues.
É que todos os terrenos da vila que circundava a casa da família foram amealhados por uma incorporadora, em 2003, para a construção de um prédio comercial no local, a um quarteirão do Hospital do Coração e a dois do metrô.
Todos menos o de dona Marly. Além do apreço pela casa, houve outro fator que a impediu de cerzir a venda da oficina de costura: o preço. "A oferta, de R$ 600 mil,estava baixa demais. De-mais."
Salvador Galiotti, 77, Alda Amparo Galiotti, 73 e Sueli Galotti, 50, Casa Verde
Robinho, 11, e Princesa, 13, não podiam ficar no relento. Nem viver dentro de um apartamento. Foi o amor pelos cachorros o motivo principal por trás da negativa com que Salvador Galotti respondeu à oferta de uma incorporadora, dez anos atrás. Em troca do terreno de sua casa, empresários imobiliários ofereceram dois apartamentos do futuro edifício Millenium, na mesma praça Hilário da Conceição --ou praça do Queijo, para a vizinhança.
"Aí que eu disse não, por mais que cada apartamento valesse a mesma coisa que minha casa", diz Galiotti. Na Casa Verde Alta desde 1955, o aposentado diz se lembrar da esquina onde hoje mora quando não havia nenhuma outra edificação na região. "Era tudo terra." A água que ele usava para fazer massa corrida e ajudar os pedreiros aos fins de semana vinha do poço. "Eu construí com minhas próprias mãos, e sei que vale mais do que dinheiro."
A proposta foi alta porque o terreno de Salvador fica na esquina, ponto estratégico para a planta dos prédios. A negativa despertou uma investida mais forte da empresa. "A corretora que negociava a compra do nosso terreno partiu daqui de casa falando: 'A sua casa vai virar um cinzeiro dos moradores do prédio'", diz Sueli Galotti, filha de Salvador que construiu sua casa colada à do pai. "Mas não virou, nunca jogaram nada no meu quintal."
Mesmo menor do que o previsto, a construção foi à frente e acima. Barulhenta, custou em quase dois anos algumas noites de sono. "Minhas e dos cachorros também", diz Sueli.
Mas valeu a pena, diz a filha Galiotti. O prédio soterrou um ferro-velho com que compartilhavam a rua até 2000. Por outro lado, transformou o fato da casa ser arejada, até então uma vantagem, em uma fria. "Meu quarto perdeu a luz, tapada pelo prédio, então com o vento virou uma geladeira", diz Salvador. É tranqüilo dormir desde que o prédio ficou pronto, "mas só de meia", diz o resistente.
Se o clima dentro de casa ficou frio, o relacionamento com os vizinhos não está no mesmo canto do termômetro. "Tem muita gente boa no prédio, já conversei bastante com uns moradores", diz Salvador. "O senhor aqui do lado? Ele é simpático, e foi muito corajoso de não desistir da casa dele. Admirável", classifica Ana Cristina Zendo, 43, moradora do oitavo andar do prédio.
Os cachos de arame farpado na parede que dividem a casa e o prédio são sinal de uma guerra que nunca aconteceu, dizem os dois lados do muro. A convivência é possível. Até porque, diz Salvador, é a única opção. "Daqui eu não saio. É minha terra. É o meu chão."
Elizabeth Pacheco, 71, Vila Mariana
O trabalho das Irmãs Paulinas é convencer o mundo da palavra de Jesus. Mas nem todo poder persuasivo das freiras foi capaz de fazer dona Elizabeth Pacheco, 71, vender sua casa e assim ceder espaço para a construção do quartel-general do grupo religioso na Vila Mariana.
Deu que o sobrado de Elizabeth agora tem a boa vizinhança lateral de um jardim, com imagem de Nossa Senhora vitrinada e rosas florindo o ano todo. Só que a vista dos fundos ganhou um edifício de oito andares, que bloqueia o Sol como um "eclipse diário", diz.
A recusa de venda de Elizabeth não atrapalhou em nada os planos de edificação das Paulinas, diz irmã Daniela Rodrigues, gerente de obras do grupo. O prédio foi finalizado em 2009, após dois anos de obras e, mesmo sem o terreno da casa que não caiu, ficou do tamanho necessário. São 8 mil m2 que congregam um auditório para gravação de programa para a TV Santuário, auditório com 400 espectadores sentados, uma editora de revistas e livros cristãos, salas de aula e estúdio de rádio. "A planta original já contemplava que o terreno dela não faria parte do edifício", diz Rodrigues.
Ainda assim, as freiras confirmam que fizeram uma proposta pela casa da vizinha e por mais um sobrado, geminado ao de Elizabeth, que compraram e não puseram abaixo. "Ia ficar um "dente" se a gente destruísse uma casa e deixasse a outra", diz irmã Daniela Rodrigues. A segunda casa em pé foi alugada para um salão de beleza, que, diz a recepcionista, não tem freiras entre a clientela.
Elizabeth diz ter sido a única da vizinhança a recusar a venda porque a oferta não bastava para comprar um apartamento no mesmo quarteirão. "Não me movo nem um milímetro deste bairro!" Além de gostar do pedaço, a dona de casa desconhece outras regiões da cidade. "Eu mal saio, e a coisa pode ser bem perigosa em São Paulo." Mas não existe medo de morar desavizinhada em um terreno que costumava abrigar 15 casas quando se mudou, na década de 1950. "Segurança é questão de sorte."
De sorte e de ter bons vizinhos, como as freiras, que deixaram a rua mais segura na opinião de Elizabeth. Proteção divina? "Não, quem me deixa mais segura são os guardas do prédio delas", diz a dona de casa cristã, mas que não aparece numa missa "há anos".
Caso mude de ideia, será tarde demais. O grupo Paulinas diz não ter mais interesse na compra de sua casa. "A vida é assim. Em uns meses, faço 72 anos. Poderia não fazer. Daqui a pouco, não estarei mais aqui, que nem as casas aqui em torno." Mas enquanto estiver por estas bandas, ela pede para dizer que fica. Em casa.

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