Jornal da Comunidade -
Apesar do aumento do preço dos imóveis, país não corre o risco de uma crise no setor, como ocorreu nos EUA. Solidez do sistema de crédito nacional afasta o perigo
Ao contrário do que muita gente pensa, o Brasil não segue os passos da crise que ocorreu nos Estados Unidos em 2008, oriunda do boom imobiliário. Ao analisar as duas situações e avaliar o cenário brasileiro, especialistas acreditam que a possibilidade de o Brasil quebrar por causa do aquecimento do setor imobiliário é muito remota.
Marco Antônio Demartini, diretor da Empreendimentos Imobiliários da Lopes Royal, garante que não existe bolha no Brasil e que ela está longe de existir. “Nossa situação é muito diferente da situação do mercado norte-americano. O Brasil é a bola da vez, está em crescimento. Em comparação com os outros países, temos uma economia bastante forte. Não tem bolha e nem queda de preço, pois a fase que os EUA viveram é oposta à que o Brasil vive hoje. Eles não tinham o sistema habitacional que tem aqui, nem análise de crédito. As pessoas lá têm vários financiamentos ao mesmo tempo, aqui isso é raríssimo. Podemos dizer que o mercado está andando de lado, mas basta o governo ajudar e diminuir a burocracia para tudo se endireitar”, analisa.
O executivo observa que o Brasil, de 2010 a 2024, terá comercializado 23 milhões e 500 mil moradias. Isso porque há um déficit habitacional grande. Há dois anos o percentual de financiamento era de 3%. Se o Produto Interno Brasileiro (PIB) do Brasil é de 100 milhões, tínhamos três milhões de financiamento imobiliário. Hoje esse número chegou a 4,5% do PIB brasileiro. Então, estamos crescendo. Mas o Chile tem 16%, o EUA quase 50% e tem ainda países onde o volume de financiamento é maior que o próprio PIB”, compara.
Valorização rápida
A principal diferença da situação do país, hoje, com o que ocorreu nos Estados Unidos é que lá os imóveis se valorizaram muito e em ritmo acelerado. As pessoas faziam créditos para financiá-los. Como a valorização do imóvel era alta, os bancos hipotecavam o imóvel e não usavam o valor para abater o financiamento, e sim para novos gastos. Os imóveis já não garantiam o valor inicial do empréstimo. A análise de crédito lá não chega perto da brasileira. Aqui há mais rigor e menos inadimplência. No Brasil, o comprometimento de renda é mais alto, aqui a taxa de juros é mais alta e o prazo de financiamento, menor. Há mais comprometimento.
“Já passamos por várias crises imobiliárias, financeiras e políticas. Em 34 anos que temos de mercado, nunca vi imóvel cair de preço. É claro que, depois de três anos de um acelerado crescimento nos preços, é normal passar por um período de acomodação”, avalia. “Hoje, em Brasília, nosso problema é com o governo local, que não está aprovando os projetos que tem para aprovar, com as políticas do Relatório de Impacto no Trânsito (RIT) e o Estudo de Impacto na Vizinhança (EIV) Há muita coisa parada. Enquanto há lançamento, você vende imóvel, ele é revendido e forma-se um ciclo imobiliário”, justifica.
Mercado movido a estabilidade
Hoje os analistas de mercado são unânimes em dizer que o Brasil não passa por essa preocupação. A facilidade de crédito pode gerar um aumento de preço, mas aqui os bancos são muito regulados. Isso contribui para que o preço suba e o mercado caminhe”, ressalta Adalberto Valadão, presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário. Ele admite que o percentual de crescimento do mercado imobiliário deve diminuir, pois ao longo desses anos de crescimento, que chegou a até 50% anual, o mercado se ajustou e a demanda foi atendida. “A expectativa para os próximos anos é que o mercado continue crescendo, ainda que passe por este processo de acomodação.”
Newton Braga, professor de economia do IESB, explica que o termo “bolha” surge da especulação. “De repente, o bem de uma pessoa tem uma cotação artificial. Será que a valorização do Noroeste é isso tudo (apartamento de dois quartos com o m² a R$ 10.200) ou não?”, indaga.
“O volume de crédito no Brasil é muito grande, mas não se compara ao dos EUA. Quando a nação é rica, a capacidade de endividamento é maior. Por isso, correm mais riscos”, ressalta o professor.
“Os principais aspectos que isentam nosso país de uma bolha são justamente essa grande demanda, o mercado de crédito financeiro regulamentado e o perfil dos compradores, entre 25 e 40 anos, que deve partir para a compra do segundo imóvel”, observa Júlio César Peres, presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do DF. A importância do mercado estar em contínuo crescimento está ligada ao desenvolvimento do país. “Sempre haverá geração de empregos. Só em Brasília temos 67 mil empregados. Quanto mais obras, menor a desigualdade social e são menos pessoas sem moradia”.

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