The Wall Street Journal
Os investidores do sul da Europa, receosos em relação à saúde financeira dos seus bancos e ao futuro do euro, estão transferindo seu patrimônio para moedas, imóveis e produtos de investimento fora da zona do euro, dizem banqueiros e autoridades governamentais.
Em um sinal preocupante para os bancos europeus, os investidores na Grécia, em Portugal e na Itália estão pedindo a seus bancos e advogados alternativas para proteger o seu dinheiro, no caso do colapso de bancos da zona do euro ou de uma quebra do próprio euro. Alguns estão convertendo os depósitos em moedas como o franco suíço. Outros estão comprando imóveis fora da zona do euro, em lugares como Londres, ou estão criando fundos para colocar sua fortuna em jurisdições distantes, como Cingapura e Bahamas, dizem executivos de bancos e advogados.
Clientes de bancos na Grécia e outros países do euro têm retirado seus fundos com medo de uma quebradeira
Embora os líderes europeus tivessem esperança de que o acordo firmado em 9 de dezembro para um pacto fiscal mais forte na zona do euro fosse acalmar essas preocupações, as tensões permaneceram intensas na semana passada, quando o euro atingiu a menor cotação em relação ao dólar desde janeiro. Além disso, no primeiro leilão realizado pela Itália depois do pacto, o governo teve que pagar um juro recorde para a era pós-euro, de 6,47%, para vender títulos de dívida de cinco anos, ante 6,29% no mês anterior.
Como consequência, a fuga de capitais deve continuar e pode se intensificar, dizem os especialistas. "Clientes como executivos e empresários veem risco no sistema bancário italiano", diz Andrea Cingoli, diretor-presidente da Banca Esperia, um banco para clientes ricos de Milão, com 13,5 bilhões de euros (US$ 17,5 bilhões) sob gestão. "Por causa disso, eles estão avaliando suas opções internacionais."
Com exceção da Grécia, os valores ainda são relativamente pequenos, mas o risco de um êxodo maior permanece alto. "Vamos ter saídas significativas de recursos desses países? Ainda não", diz Marcello Zanardo, um analista da Sanford Bernstein, em Londres. "Mas a linha é muito tênue e a atmosfera está tensa."
Na Itália, o rápido aumento dos temores em relação aos problemas fiscais e o nervosismo diante do aperto de crédito enfrentado pelos bancos italianos têm levado os investidores para a Suíça, onde o franco disparou este ano à medida que os investidores buscavam refúgio para a crise da zona do euro. Em resposta, banqueiros da região suíça de língua italiana de Ticino têm relatado uma pequena mas estável entrada de dinheiro italiano no último mês, junto com um abrupto aumento nos pedidos de informações de italianos temerosos da possibilidade de colapso dos seus bancos ou da própria moeda única.
"Nós temos observado um constante aumento no fluxo de recursos de italianos, em busca de um ambiente financeiro e político estável como o da Suíça, onde os bancos estão se afastando do modelo antigo de sigilo", diz Christian De Prati, ex-diretor-presidente da Merrill Switzerland e atualmente um gestor independente de fortunas.
Os banqueiros dizem que os italianos estão convertendo seus euros em francos suíços para depositá-los na Suíça por garantia. Os cofres para depósito individual estão completamente esgotados. Outros estão comprando ouro. A Pro Aurum, varejista de ouro de Ticino, registrou um salto nas vendas de barras de ouro nos últimos seis meses.
Alguns estão considerando opções mais radicais. Paolo Gaeta, um advogado de Nápoles especializado em gestão de riquezas, está ocupado, ajudando os clientes a depositar seu patrimônio em novos fundos em Cingapura, Bahamas ou nas Ilhas do Canal, no canal da Mancha. "Nós estamos sendo bombardeados por clientes", diz ele.
Andrea Caraceni, diretor do CFO Family Office, uma firma de gestão de fortunas sediada em Milão, com 800 milhões de euros sob gestão, está aconselhando aos clientes que tirem dinheiro da Europa toda. E Roberto Lenzi, um advogado de Milão especializado em planejamento de fortunas para clientes com pelo menos 5 milhões de euros em ativos, tem nos últimos meses recebido pedidos de clientes buscando ajuda para transferir suas residências assim como seus ativos para o exterior.
De acordo como Banco da Grécia, o banco central grego, cerca de um quinto dos depósitos retirados nos primeiros nove meses deste ano foi para o exterior. Um alto executivo de um banco grego disse que seu grupo tem observado um aumento nas transferências de recursos para fora do país nas últimas seis semanas.
O mercado imobiliário de Londres também está seduzindo investidores assustados da zona do euro. Compras de moradias localizadas na região central de Londres por cidadãos gregos triplicaram no último ano em uma das corretoras líderes de mercado, a Knight Frank, de acordo com Liam Bailey, o diretor da área de pesquisa de imóveis residenciais da empresa. Ao mesmo tempo, as aquisições feitas por espanhóis dobraram.
Os italianos, que representam o quinto maior grupo de compradores estrangeiros no setor imobiliário residencial de Londres para a Knight Frank, correram para comprar propriedades na cidade depois da anistia fiscal italiana em 2009, e as compras deles hoje permanecem naqueles altos níveis. Os compradores da zona do euro contribuíram para um aumento de 9% dos preços de imóveis residenciais em Londres até o momento este ano, segundo Bailey.
Investidores do sul da Europa também estão buscando produtos de investimento que minimizem o risco da zona do euro sem que seja necessário enviar o dinheiro para fora da região. A demanda por cofres subiu este ano em Portugal, dizem os banqueiros, já que os correntistas estão buscando alternativas para suas contas bancárias, que poderiam ser congeladas caso o país entre em colapso ou abandone o euro.
Os bancos — já receosos de uma escassez de depósitos — estão oferecendo outros serviços. Bancos em Portugal, incluindo a filial local do Deutsche Bank AG, estão oferecendo aos clientes fundos de ações registrados em Luxemburgo ou contas de depósito em outras moedas, como o franco suíço, o dólar ou o iene.
Na Itália, um produto novo do Deutsche Bank que acompanha o ouro tem tido forte demanda nas últimas semanas. Os bancos gregos estão propondo títulos de dívida de governos estrangeiros ou até mesmo permitindo que os clientes depositem seus euros em subsidiárias do banco fora da Grécia.
"Na Grécia, o risco do país é um problema — muito maior que o risco da moeda", diz um executivo de um banco grego.
(Colaborou Patricia Kowsmann.)

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