Correio Braziliense -
Dissertação de mestrado de analista de infraestrutura levanta um alerta: Águas Claras poderá, em breve, se transformar em um local quente e abafado. O fenômeno é consequência da grande proximidade dos prédios
| Paisagem de metrópole que cresceu rápido: segundo a arquiteta, "houve um planejamento inicial, mas ele foi sendo distorcido com o tempo" |
Além dos carros, o vento terá dificuldade para circular em Águas Claras nos próximos anos. Quando todos os prédios de uma das regiões administrativas mais povoadas do Distrito Federal estiverem prontos, impedirão a passagem do ar, criando uma ilha de calor. O fenômeno foi previsto na dissertação de mestrado da analista de infraestrutura Andiara Campanhoni, 27 anos. Em um programa de computador, ela recriou as quadras 203, 204 e parte da Avenida Araucárias com todas as construções prontas, e chegou a uma conclusão preocupante. A pouca distância entre os edifícios e a falta de áreas verdes provocam um desconforto térmico para quem circula na região.
Nas áreas mais críticas, ou seja, onde há pouco afastamento entre os edifícios, Andiara explicou que a temperatura varia entre 28º C e 33º C durante o ano. Isso representa até 5º C a mais do que nas áreas com maior ventilação, segundo o estudo da arquiteta. No trabalho, ela indica que a distância confortável entre os prédios deve ser de, pelo menos, 10m; caso contrário, pode haver desconforto térmico. “Em alguns locais, como nas construções próximas às avenidas, a distância é de 5m”, alertou. Com a proximidade atual, muitos moradores também reclamam da falta de privacidade dentro de casa.
A área de 25 hectares foi escolhida para o estudo por estar bastante ocupada e ter diversidade de construções. É uma quadra padrão, como explicou Andiara. Para fazer a simulação no computador, ela usou os mesmos tipos de edifícios que há hoje na cidade. Fez três simulações. Na primeira delas, desenhou a quadra como é hoje. Na segunda, a paisagem está completa, com os prédios que ainda faltam construir; e, na terceira, a arquiteta reconstruiu a quadra de acordo com os padrões do Plano Piloto. “O problema não é a forma dos prédios ou o tamanho, mas a proximidade entre eles”, reforça. “Se esse afastamento não for respeitado, o calor vai aumentar.” Quando o trabalho começou, em 2008, um terço dos edifícios de Águas Claras não havia saído do papel.
Levantamento
O estudo damandou duas etapas. Na primeira, a analista de infraestrutura fez um levantamento da história da cidade. “A maioria das regiões administrativas surgiu de maneira espontânea, e Águas Claras é uma das poucas que foram planejadas. Queria entender se isso fez a diferença.” Andiara observou, durante a execução do trabalho, que o desenvolvimento da cidade deixou de seguir o planejamento, fazendo com que o local crescesse de forma desordenada. “Houve um planejamento inicial, mas ele foi sendo distorcido com o tempo.”
Nas áreas mais críticas, ou seja, onde há pouco afastamento entre os edifícios, Andiara explicou que a temperatura varia entre 28º C e 33º C durante o ano. Isso representa até 5º C a mais do que nas áreas com maior ventilação, segundo o estudo da arquiteta. No trabalho, ela indica que a distância confortável entre os prédios deve ser de, pelo menos, 10m; caso contrário, pode haver desconforto térmico. “Em alguns locais, como nas construções próximas às avenidas, a distância é de 5m”, alertou. Com a proximidade atual, muitos moradores também reclamam da falta de privacidade dentro de casa.
A área de 25 hectares foi escolhida para o estudo por estar bastante ocupada e ter diversidade de construções. É uma quadra padrão, como explicou Andiara. Para fazer a simulação no computador, ela usou os mesmos tipos de edifícios que há hoje na cidade. Fez três simulações. Na primeira delas, desenhou a quadra como é hoje. Na segunda, a paisagem está completa, com os prédios que ainda faltam construir; e, na terceira, a arquiteta reconstruiu a quadra de acordo com os padrões do Plano Piloto. “O problema não é a forma dos prédios ou o tamanho, mas a proximidade entre eles”, reforça. “Se esse afastamento não for respeitado, o calor vai aumentar.” Quando o trabalho começou, em 2008, um terço dos edifícios de Águas Claras não havia saído do papel.
Levantamento
O estudo damandou duas etapas. Na primeira, a analista de infraestrutura fez um levantamento da história da cidade. “A maioria das regiões administrativas surgiu de maneira espontânea, e Águas Claras é uma das poucas que foram planejadas. Queria entender se isso fez a diferença.” Andiara observou, durante a execução do trabalho, que o desenvolvimento da cidade deixou de seguir o planejamento, fazendo com que o local crescesse de forma desordenada. “Houve um planejamento inicial, mas ele foi sendo distorcido com o tempo.”
| Andiara Campanhoni critica a forma com que a região se desenvolveu |
Essas distorções no crescimento de Águas Claras também são abordadas no trabalho de Andiara. Segundo ela, os prédios residenciais não deveriam ultrapassar os 12 andares, e os comerciais, 15. “Esses prédios com 20 ou mais andares trazem mais pessoas para a cidade, o que sobrecarrega o trânsito, as redes de água e esgoto, entre outros problemas. Mas a densidade não é ruim, só é se não for planejada”, defendeu. “Não adianta planejamento se não houver fiscalização. O que ocorre é que, durante a implantação da cidade, não há rigor no cumprimento das normas.”
Com o fim do trabalho e as conclusões em mãos, Andiara apresentou sugestões para a cidade se tornar, cada vez mais, um ambiente agradável de se viver. Ela propõe a retomada dos bulevares, áreas verdes destinadas ao lazer dos moradores. “Manter a vegetação nas praças também poderia ajudar a amenizar o efeito do calor. As distorções no desenvolvimento da cidade são muitas, mas, se houver um planejamento, ela pode se tornar mais agradável e a pessoa se sentirá estimulada a, por exemplo, caminhar pela cidade em vez de usar o carro para ir a algum lugar”, exemplificou.
Dickran Berberian, especialista em patologia de estruturas da Universidade de Brasília (UnB), por sua vez, analisa que qualquer previsão que se faça sobre o futuro de Águas Claras é otimista. Segundo ele, quando uma cidade é projetada, uma série de fatores devem ser respeitados, como o microclima da região e a ventilação cruzada. O especialista cita ainda duas variantes: o número de habitantes por metro quadrado e a destinação da área. “Se esse processo for violentado, há uma série de consequências, como o aquecimento. Naquela cidade (Águas Claras), onde aumentaram o gabarito dos prédios, não houve o mínimo de planejamento”, argumentou. “Para amenizar essa tragédia anunciada, qualquer construção na área deveria ser bloqueada imediatamente, além disso, seria necessário reflorestar áreas devastadas e criar estacionamentos subterrâneos. De toda forma, ainda dependeríamos dos planejadores e dos políticos.”
Privacidade
As previsões do estudo de Andiara já podem ser sentidas na pele pelos moradores. A estudante Sarah Pibernat, 33 anos, mora em Águas Claras há três anos e se sente incomodada com a proximidade dos edifícios. “Meu prédio tem 22 andares, quantidade maior do que estava prevista inicialmente. Na frente dele estão construindo mais um e ainda há a previsão de uma nova estrutura ao lado. Senti que a ventilação diminuiu, sem contar a falta de privacidade.” Para a estudante, a cidade carece de infraestrutura e planejamento. “Também faltam mais áreas verdes para os moradores, principalmente para as crianças. Temos só um parque, mas para nós que moramos longe fica difícil ir até lá.”
Para o representante comercial Rodrigo Tancredo, 36 anos, a sensação de calor identificada pela arquiteta aumenta no período da seca. “É mais desconfortável devido à quantidade de prédios e por eles serem muito altos. O ar não circula e tudo fica muito abafado”, reclamou. Rodrigo diz gostar de morar na cidade, onde vive há mais de um ano, mas defende a construção de mais áreas verdes e locais destinadas ao lazer da população.
Segundo Marta Romero, professora do Departamento de Tecnologia da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB) e orientadora de Andiara, o trabalho da jovem é pioneiro em Brasília. “Aqui, os estudos se preocupam muito mais com o interior do edifício, tendem a estudar o desempenho ambiental interno da edificação, e o trabalho dela é voltado para o ambiente urbano. A construção indiscriminada de edifícios provoca impactos no ambiente urbano, como a sensação de calor maior, desconforto, acúmulo de gases e poeira entre outros elementos que, somados, prejudicam a saúde da população”, destacou.

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