Em princípio, não haveria nada de errado na negociação não fosse um lote muito suspeito no meio da lista. No lote 34, de acordo com a própria descrição do site, está sendo negociado o "Centro de Treinamento da Telebrás", localizado em Pernambuco. Bom, o nome deixa claro que o imóvel pertence (ou pertenceu) à estatal Telebrás. E, se foi construído ou comprado pela estatal, faria parte da chamada relação de bens reversíveis à União.
Já dediquei várias colunas à controvérsia envolvendo os bens reversíveis. Este é o termo usado para o conjunto de imóveis e equipamentos que são necessários à prestação da telefonia fixa. E, portanto, deverão ser devolvidos ao Estado brasileiro quando terminar a vigência das concessões das teles, em 2025. Para negociar um imóvel pertencente a esta lista é preciso obter uma autorização formal da Anatel antes de fechar a venda. E, até o momento, não é possível dizer se a Anatel deu essa autorização à Oi.
O caso do Centro de Treinamento é muito interessante. Primeiro porque não estamos falando de um imóvel "baratinho". Quem quiser arrematá-lo terá que desembolsar pelo menos R$ 7,235 milhões. Além de valorizado, o imóvel também já foi bastante disputado no passado. A briga, obviamente, foi entre a Oi e a Telebrás. A estatal chegou a ir à Justiça para recuperar o prédio e revitalizá-lo, retomando suas funções originais de centro de treinamento de profissionais. Coincidência ou não, o processo movido pela Telebrás teria sido concluído recentemente por meio de um acordo. O que diz o acordo? Segundo fontes, que o prédio poderia ser leiloado pela Oi. Com quem ficará o dinheiro arrecadado na oferta pública ainda é um mistério para esta que vos escreve.
O que é certo até o momento é que o leilão de imóveis feito pela Oi, legítimo ou não, coloca mais lenha no debate sobre os bens reversíveis. Muitas perguntas precisam ser respondidas. Estes imóveis são essenciais à prestação da telefonia fixa nos estados? A Anatel autorizou essas vendas? Telebrás e Oi têm selado acordos judiciais para contornar a controvérsia sobre o que é e o que não é reversível?
O leilão em si não é prova de que a negociação dessas propriedades é ilegal. Mas sua realização frisa a necessidade urgente desse assunto ser esclarecido de uma vez por todas. Afinal, o que é público e o que é privado? E quem pensa que este debate é apenas burocrático, se engana profundamente. Se as concessionárias estão mesmo vendendo imóveis comprados com dinheiro público, toda a sociedade está sendo lesada. No passado, as concessionárias não se intimidaram em negociar, mesmo sem aval da Anatel, centenas de imóveis em todo o país. Essas vendas ilegais estão registradas em relatórios de fiscalização da própria agência reguladora, produzidos em 2010 e mantidos em sigilo pela Anatel até hoje.
Este material, levantado graças a um mutirão de fiscalização conduzido sob o comando do ex-superintendente de Fiscalização Edilson Ribeiro dos Santos - demitido em novembro do ano passado - revela não só as negociações ilícitas de centenas de bens como a própria inabilidade da agência reguladora de controlar essas negociações. Um levantamento feito por advogados e procuradores na relação de propriedades do antigo Sistema Telebrás, disponível no Arquivo Nacional, mostrou que a controvérsia sobre os bens reversíveis gira em torno de um patrimônio estimado em R$ 80 bilhões. E este valor não leva em conta os investimentos feitos na rede de telecomunicações com dinheiro público, mas apenas os imóveis.
Há anos, a entidade de defesa do consumidor ProTeste tenta desatar este nó na Justiça. Muitos avanços foram feitos, mas o centro da polêmica continua. A última ação movida pela ProTeste está pronta para a decisão da Justiça. No ano passado, o juiz do caso negou o pedido de liminar feito pelo órgão de defesa do consumidor argumentando que não haveria urgência na ação uma vez que não estava constatada que a venda de imóveis estava sendo realmente realizada e, caso se comprovasse, a empresa teria que responder civil e criminalmente pela alienação. O leilão promovido pela Oi precisa ser investigado e sugere que as coisas não andam tão calmas assim no mundo dos bens reversíveis. A negociação dos prédios e terrenos está hospedada no site Zukerman Leilões e receberá lances até o dia 4 de junho, quando está previsto um pregão presencial dos imóveis na Mansão França, em São Paulo.

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