terça-feira, 29 de maio de 2012

Por que adoro morar aqui (As crônicas de quem ama os bairros mais cobiçados do país)

REVISTA ÉPOCA - 

As crônicas de quem ama os bairros mais cobiçados do país, como Ipanema (no Rio de Janeiro) e Ibirapuera (em São Paulo)


Um bairro é o conjunto das coisas construídas – parquinhos, lojas, calçadas, prédios, muros. Mas é também, e principalmente, a soma de tudo o que as pessoas sentem por morar ou querer morar ali. Nesse conjunto, entra o que há de mais importante e mais difícil de explicar em qualquer vizinhança – como as crianças brincam, onde os velhos se reúnem, as lembranças dos vizinhos que se foram, a tranquilidade (ou falta dela), o orgulho da arquitetura ou da natureza local. O que faz alguns bairros ser únicos? Convidamos moradores, ex-moradores e simpatizantes para contar o que há de especial em alguns dos pedaços mais amados e cobiçados do Brasil. 

BAIRRO DO MEIRELES
FORTALEZA
(Foto: Jarbas Oliveira/ÉPOCA)

NOITE FERVILHANTE E MEIGUICE BUCÓLICA

por Ana Miranda*

Diante dos verdes mares cantados por José de Alencar estende-se o bairro do Meireles. O destaque da região é a vida a pé. O bairro é ajardinado, tem natureza, movimento, os moradores são donos das ruas. Tem sol e calor e brisa o ano todo, céu sempre azul, sempre estrelado, uma luminosidade suave, pois fica no Ceará. Tem uma alegria no ar, uma informalidade confortável, um à vontade, caminhar de chinelas. Numa praça cheia de gatos, posso comprar pão alemão na carroceria do carro. O cearense dá informação, para para conversar, tem tempo para o outro. No Meireles, as pessoas sorriem ao cruzar com um passante. É uma população acolhedora que conserva traços da meiguice interiorana.

À noite, o movimento fica mais intenso com a instalação de barracas onde se vendem artesanato e iguarias locais, como castanha-de-caju, cachaças... Na avenida, utilitários de alto padrão passam devagar. Vista do mar, a silhueta do bairro se compõe de arranha-céus, a maioria de construção recente, e, quanto mais recente, mais luxuosa. Numa praça, reúnem-se moradores e frequentadores do Meireles para debater e tentar resolver problemas locais, como limpeza e conservação. Os cearenses são espirituosos e chamam o local de Praça dos Estressados.

Restaurantes e bares tornam algumas ruas fervilhantes noite adentro. E, como a gentrificação é recente, ainda encontramos uma encantadora presença do antigo, do inusitado: casas ajardinadas, vilas bucólicas, prédios baixos, cercados de imensos terrenos com velhas árvores, casarões quase em ruínas, bosques esquecidos. E uma mistura de cosmopolitismo com um delicioso provincianismo. Por exemplo, uma mercearia com bananas na porta e um supermercado requintado e caro, uma loja de carros suntuosos e um borracheiro estilo periferia, uma butique de roupas refinadas e um pequeno armarinho onde se consertam roupas.

O Meireles é um retângulo de cerca de 2.500 metros quadrados densamente povoado, que começa na orla e avança algumas ruas adentro. O bairro é embelezado pela paisagem de mar, coqueirais e jangadas, cenário de paraíso que o Ceará evoca. Dali, o nascer da lua cheia é de tirar o chapéu.

* Ana Miranda é romancista, autora de Boca do inferno. Depois de crescer no Meireles e viver cinco décadas no Rio, em Brasília e em São Paulo, hoje mora numa cidade perto de Fortaleza 

IPANEMA
RIO DE JANEIRO
(Foto: Christophe Simon/AFP)

O BAIRRO QUE O MUNDO INVEJA

por Affonso Romano de Sant'anna*

Se começo a dizer o endereço onde moro – Rua Nascimento Silva –, antes que diga o número do prédio que termina em 7, o outro começa já a cantarolar a canção-carta de Vinicius e Toquinho para o Tom: Nascimento Silva 107, você ensinando pra Elizeth as canções de “Canção do amor demais”... e o resto da canção vocês sabem: lamentoso, o poeta vê o presente e lembra do passado quando não só a garota, mas a própria Ipanema, era lindamente ingênua. Seja em Paris, Nova York, Teófilo Otoni ou na Tunísia, o interlocutor, ao ouvir de mim a palavra “Ipanema”, exibe no rosto uma luminosa inveja.

Na portaria de meu prédio, há várias fotos de Ipanema sendo construída entre 1920 e 1930. Era um areal só, e as casas de dois andares iam surgindo na Garcia Dávila e Vieira Souto. Em 1968 – que ano, meu Deus! –, morei na Rua Montenegro, que liga a praia à Lagoa. Hoje, continuo dizendo aos motoristas: “Montenegro!”, e logo tenho de traduzir: “Rua Vinicius de Moraes”. Posso lhes garantir que Leila Diniz, Paulo Francis, Tom, Vinicius e Millôr existiram, como realmente existem Gabeira, Carlinhos Lyra e Jaguar (se fosse enumerar todos os moradores ilustres do bairro, ocuparia toda a revista).

Hoje, entre a cobertura que era de Rubem Braga e a minha está a modernidade da UPP. Ergueram uma torre e um mirante, mais uma passarela por onde segue o pessoal da “comunidade” rumo a outra torre altíssima. Não há mais tiroteio de balas luminosas rascantes. As pessoas alugam suas “lajes” e casas para turistas. Invadiram essa praia. Bom? Ruim? O metrô trouxe multidões. Nas ruas, quase só se ouve inglês, espanhol, italiano. Bíceps tatuados desfilam, turistas sorvem açaí nas esquinas. É o reino das bermudas. E, sobretudo, das sandálias havaianas, que os turistas hospedados em dezenas de “hostéis” avidamente compram. Às vezes ainda ouço o sino da igreja da Nossa Senhora da Paz. Há muito tempo que nenhum sabiá pousa em minha cobertura. E já não posso consultar Rubem Braga sobre como alimentar tais aves.

* Affonso Romano de Sant’anna é mineiro de nascimento e carioca por adoção. O poeta, ensaísta, cronista, crítico e professor tem 75 anos, 41 deles vividos em Ipanema, ao lado da mulher, a escritora Marina Colasanti 
 
IBIRAPUERA
SÃO PAULO
(Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)

UM PARQUE FEITO DE ÁRVORES E IDEIAS

por Eduardo Srur*

Um parque deve se aproximar, pela natureza e arte, da vida. E ser capaz de distrair as pessoas nas horas de lazer e reflexão, fazendo-as sentir seu valor e sua própria existência na cidade. Na adolescência, pedalava pelas ruas dos bairros no entorno do Parque do Ibirapuera. Passeava pelas alamedas e em volta do lago, esperando o sol se pôr. Saudava a chegada da noite no horizonte urbano.

Quando passei a me interessar por arte, frequentava as exposições nos edifícios da Bienal e do Museu de Arte Moderna. Certa vez, ao trabalhar na montagem da Bienal Internacional de Arte, aproveitei para percorrer o parque à noite, na escuridão, escondido da segurança. Foi no Ibirapuera – entre as exposições e a natureza – que tive o desejo de intervir na vida urbana e realizar obras no espaço público. Tempos depois, urdi um plano de invadir o lago do Ibirapuera num bote salva-vidas. Visitei o lago do parque ao amanhecer, diversas vezes, quando as brumas ainda diluíam a vista dos grandes eucaliptos, fazendo-me recordar uma pintura romântica. Faltou fôlego para pôr em prática a ação que, imagino, terminaria com o resgate dos bombeiros e minha prisão. Em 2010, instalei no parque a obra Nau, uma escultura em forma de barquinho de papel com 6 metros de comprimento. Era um convite ao visitante para uma navegação poética pelo parque.

Em maio, pretendo construir no Ibirapuera o maior labirinto de lixo reciclável do mundo. Oitenta toneladas de resíduos sólidos serão distribuídas geometricamente numa área de 700 metros quadrados. A ideia da exposição é tornar o espectador parte integrante da obra, colocando-o frente a frente com o lixo. O Labirinto terá duas portas de acesso e espelhos em seu interior para potencializar o efeito desorientador nas pessoas dentro dos corredores.

A região do Ibirapuera é assim: um espaço rico em possibilidades, um laboratório de intervenções artísticas e um estímulo para quem gosta de testar os limites da imaginação.

* Eduardo Srur é paulistano, artista plástico e fã da região do Parque do Ibirapuera 
 
CAMPO COMPRIDO
CURITIBA
(Foto: Joel Rocha/ÉPOCA)

UM LUGAR ENTRE DOIS TEMPOS

por Miguel Sanches Neto*

Em um de meus retornos a Curitiba, desejava viver em uma casa para recuperar minha infância interiorana. Dos terrenos que vimos, ficamos entre dois: um na divisa dos bairros Mossunguê e Campo Comprido, em uma rua meio rural e longe de tudo; o outro perto de um parque, num bairro de imigrantes poloneses, a Barreirinha. Escolhemos a Barreirinha. Duas décadas depois, a área do Mossunguê e do Campo Comprido abrigava empreendimentos imobiliários cobiçados, como Ecoville. Uma nova Curitiba era edificada naquela região, mas não soubemos ver isso. A Barreirinha, bem, a Barreirinha continua quase do mesmo jeito, porque a cidade não se reinventou muito naquelas bandas.

Com o Ecoville, surgiram shopping centers, restaurantes, mercados. É quase outro centro ou uma réplica atualizada de regiões nobres da cidade, como o Batel. As ondas de desenvolvimento atingiram o bairro vizinho, Campo Comprido. Nele se instalaram duas universidades. As duas, mais a proximidade com a Cidade Industrial, atraem hoje pessoas que querem morar perto do trabalho e do estudo. O bairro ainda conta com um requintado local para shows e apresentações, o Teatro Positivo. Italo Calvino, em As cidades invisíveis, estabelece uma relação entre o espaço e a memória: A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata. É assim o Campo Comprido de hoje, espaço entre dois tempos, servido por vias rápidas, mas onde ainda se vê um ou outro cavalo pastando num terreno baldio.

* Miguel Sanches Neto é escritor curitibano 

ASA NORTE E ASA SUL
BRASÍLIA
(Foto: Igo Estrela/ÉPOCA)

OS HORIZONTES COLORIDOS

por Maria Paula *

Sinto orgulho de ser de Brasília. Minha mãe conta que, quando se mudou para lá, em 1960, a capital era um grande canteiro de obras. O cenário era inóspito, coberto por terra vermelha. Nada de amigos nem parentes. Era uma ilha cercada de Goiás por todos os lados. Fui criada solta, andando de bicicleta, fazendo guerrinha de mamona, jogando queimado. As garagens dos prédios não tinham nem portão. Chegava à casa de qualquer vizinho e ia entrando, pedindo um suco, um lanchinho... A cidade toda era minha casa. Até hoje as casas de Brasília são ótimas para crianças.

Moro no Rio de Janeiro há 20 anos, e sou feliz. Mas confesso que, quando pinta uma guerra no morro, sinto vontade de botar meus dois filhotes num avião e voltar para minha terra. A cidade da minha infância não existe mais. Mas aquele céu divino que toda tarde fica tingido por tons de vermelho, roxo, alaranjado e lilás nunca vai desaparecer.

Sempre que volto, refaço os trajetos incríveis que me encantavam e continuam encantando. Vou à concha acústica do Exército na Asa Norte, à ermida Dom Bosco, aproveito o fim de tarde no Pontão, onde as crianças brincam na areia do parquinho à beira do lago. E o melhor de todos os programas: virar noites no ateliê do Paulino Aversa, artista plástico genial, que atrai os integrantes da contracultura da Capital Federal. Nas grandes cidades, o estresse beira o insuportável. Aqueles 180 graus de céu de Brasília oferecem alguma esperança aos que buscam
a liberdade.

* Maria Paula nasceu em Brasília, é atriz, apresentadora de TV, autora de Liberdade crônica e mãe de dois filhos
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