Sobrado histórico que estava interditado desde março desaba sobre a calçada. Crea afirma que dezenas de outros podem ruir
Rio - Um acidente anunciado. Após duas vistorias, em março e abril, que apontaram risco iminente de desabamento, parte do imóvel que abriga o Centro Cultural Cordão da Bola Preta, no Centro, foi ao chão ontem de manhã. Duas pessoas que estavam na calçada perto do sobrado, que é tombado pelo município, sofreram escoriações leves. O Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do Rio (Crea-RJ) alerta: dezenas de construções históricas da região estão a ponto de desabar.
“Estava em frente ao prédio e resolvi atravessar a rua. Dei dois passos e tudo caiu. Um milagre me salvou”, conta Ana Lúcia Andrade, 55 anos, que ficou em choque e precisou de atendimento médico. Funcionária da Petrobras, ela ligou para a prefeitura há alguns meses para pedir vistoria no imóvel, na esquina das ruas da Relação e do Lavradio.
Queda: chuva causou sobrepeso no imóvel da esquina das ruas da Relação e do Lavradio | Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia
“A gente não poderia precisar se o imóvel cairia hoje ou amanhã, mas estava evidente que aconteceria”, afirmou o conselheiro do Crea Antônio Eulálio. Segundo ele, a chuva de segunda-feira provocou o sobrepeso do telhado, que desabou empurrando a parede por sobre a calçada.
Não era preciso ser especialista para perceber o perigo. Dona de restaurante vizinho ao sobrado, Marizé Jordan conta que empresas da região aconselhavam seus funcionários a não frequentar estabelecimentos próximos ao imóvel que desabou: “Eu estava perdendo vários clientes. Muitos preferiam não arriscar. Meu estabelecimento não sofreu dano, mas vai ficar fechado por tempo indeterminado”. Após o incidente, três imóveis vizinhos foram interditados.
Vistorias são insuficientes, diz Crea
O conselheiro do Crea Antônio Eulálio alerta para a necessidade de vistoria rotineira por órgãos públicos. Ele cita a Rua Salvador de Sá, no Centro, como um dos focos do problema: “Há oito anos fizemos amostragem de prédios em situação de risco.Imóvel cai parcialmente na esquina das ruas do Lavradio e da Relação | Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia
Entraves para revitalização
O presidente do Cordão da Bola Preta, Pedro Ernesto Marinho, afirma que esperava decisão judicial para iniciar reforma no prédio. O Bola Preta receberia R$ 2,8 milhões da prefeitura para restaurá-lo, mas liminar obtida em setembro impediu as obras. A decisão foi revogada em 16 de abril. Cabe recurso.O sobrado pertence à Rio Trilhos, do governo estadual, que cedeu o imóvel ao Bola Preta em 2009. Mas o Sindicato dos Policiais Civis (Sinpol) reivindica na ação judicial a cessão do espaço. Segundo Fernando Bandeira, presidente do Sinpol, a RioTrilhos cedeu o imóvel para o sindicato em 2003. Uma reforma de R$ 600 mil teria sido feita. Mas o grupo foi despejado em 2008.
Em nota, a RioUrbe reafirmou compromisso de recuperar a sede do Bola Preta assim que a ação judicial for resolvida.
Há 4 meses, tragédia na Cinelândia
O desabamento de mais um prédio no Centro do Rio levou pânico à população que estava perto do local e fez o carioca relembrar a tragédia ocorrida há quatro meses. Na noite de 25 de janeiro, três prédios desmoronaram na Avenida Treze de Maio, na Cinelândia, matando 22 pessoas. Até hoje, famílias aguardam notícias de cinco vítimas desaparecidas.Curiosos observam local do desabamento na Avenida Treze de Maio | Foto: Severino Silva / Agência O Dia
O inquérito policial que apura as causas do desabamento foi transferido da Polícia Civil para a Polícia Federal e ainda não foi concluído. A provável causa apontada nas investigações seriam obras estruturais que estavam sendo feitas no 3º e no 9º andares do Edifício Liberdade pela empresa Tecnologia Organizacional (TO). Funcionários admitiram terem retirados paredes estruturais do prédio de 18 andares, para ampliar a área interna.
A planta original do prédio feita em 1938 previa 15 andares, com recuo. Mas os construtores acrescentaram mais três pavimentos e subsolo. Dez anos depois, os donos do imóvel receberam autorização para fazer outra obra de extensão nos três últimos andares. Segundo especialistas, as intervenções podem ter sobrecarregado a estrutura do prédio.

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